Vivemos na gloriosa era da hiperconexão, onde qualquer indivíduo munido de um smartphone se julga o ápice da evolução intelectual por dominar a arte de articular pensamentos complexos através de dancinhas no TikTok ou emojis de caveira. É um espetáculo fascinante: nunca se produziu tanto texto e nunca se entendeu tão pouco. No meio desse deserto de vocabulário resumido a gírias corporativas e estrangeirismos mal mastigados, cometo o ato subversivo de defender uma defunta. Sim, o latim.
Sei que a mera menção de uma “língua morta” provoca urticária na geração que considera a leitura de um livro de trezentas páginas uma tortura medieval. “Para que estudar algo que ninguém fala?”, indagam os nossos jovens iluminados, enquanto tropeçam na própria língua materna para redigir uma legenda de três linhas. O diagnóstico é simples: a cegueira moderna confundiu utilitarismo barato com sabedoria.
O latim não está morto; ele está apenas disfarçado sob o esqueleto do mundo civilizado. Ele é o cimento do Direito, a ossatura da Biologia, a arquitetura do pensamento ocidental e, para desespero dos incultos, a matriz direta desse português que a maioria hoje mutila sem qualquer pudor. Aprender latim nunca foi sobre encomendar um pão na padaria no Império Romano; é sobre aprender a pensar. É o ginásio da inteligência, o rigor que ensina a mente a construir raciocínios com a precisão de um cirurgião, e não com a aleatoriedade de um gerador de memes.
A recusa em encarar a tradição clássica não é sinal de modernidade; é apenas preguiça fantasiada de avanço cultural. Ao ignorarmos as raízes da nossa linguagem, tornamo-nos analfabetos funcionais de terno e gravata (ou de moletom oversized), incapazes de decifrar o próprio mundo que habitamos.
Portanto, continuem celebrando a sua ignorância orgulhosa e o seu vocabulário de cinquenta palavras. Quanto a mim, prefiro a companhia dos mortos que pensavam à dos vivos que apenas emitem ruídos. Sapere aude — ouse saber. Mas, se for pedir demais, um dicionário básico já seria um excelente começo.
Pedro Ernesto Macedo




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