Geração Z muda relação com o dinheiro e impulsiona interesse por ativos digitais

Pesquisas mostram que jovens diversificam relacionamentos bancários, priorizam serviços digitais e ampliam o interesse por novas formas de investir; especialista analisa os desafios desse comportamento A Geração Z está mudando a forma de lidar com o dinheiro, escolher instituições financeiras e acessar investimentos. Acostumados a resolver atividades pelo celular, os jovens demonstram maior familiaridade com…

Pesquisas mostram que jovens diversificam relacionamentos bancários, priorizam serviços digitais e ampliam o interesse por novas formas de investir; especialista analisa os desafios desse comportamento

A Geração Z está mudando a forma de lidar com o dinheiro, escolher instituições financeiras e acessar investimentos. Acostumados a resolver atividades pelo celular, os jovens demonstram maior familiaridade com aplicativos bancários, carteiras digitais e plataformas de investimento. Esse comportamento também ajuda a compreender o interesse por criptomoedas e outros ativos digitais, em um cenário marcado pela busca por autonomia, conveniência e novas possibilidades de participação no mercado financeiro.

Um levantamento da Visa sobre o relacionamento dos consumidores com instituições financeiras aponta que apenas 11% da Geração Z mantêm vínculo exclusivo com uma instituição. Os jovens possuem, em média, relacionamentos com pelo menos cinco instituições, embora concentrem o uso mais frequente em uma ou duas. O resultado indica uma mudança na relação com os bancos, em que fatores como experiência digital, benefícios e facilidade de acesso ganham importância.

Para Cleverson Pereira, Head de educação da AVO Educacional, a familiaridade com a tecnologia também influencia a maneira como os jovens conhecem e avaliam diferentes modalidades de investimento, incluindo os criptoativos. “A Geração Z não enxerga as criptomoedas apenas como um ativo financeiro. Ela vê a tecnologia como parte de uma nova infraestrutura econômica, mais digital, global e acessível. Isso explica por que muitos jovens chegam ao mercado financeiro por meio dos criptoativos antes mesmo de conhecer produtos tradicionais de investimento”, afirma.

O comportamento é acompanhado por uma demanda crescente por serviços financeiros digitais. Segundo a pesquisa Consumer Pulse, realizada pela TransUnion em maio de 2025, 48% dos entrevistados da Geração Z utilizaram serviços bancários on-line no mês anterior ao levantamento, percentual superior aos 36% registrados entre os participantes da pesquisa em geral. Além disso, 56% dos jovens relataram que eles próprios ou alguém de sua família utilizaram sites, aplicativos de transferência de dinheiro ou carteiras digitais.

O interesse também se estende ao crédito. Pesquisa da Serasa Experian, divulgada em junho de 2025, identificou que 49,9% dos entrevistados da Geração Z afirmaram estar buscando crédito com mais intensidade. Entre as finalidades mencionadas, 21,8% pretendiam utilizar os recursos para lazer, 21,4% para organizar as finanças e 20,3% para investir ou abrir um negócio.

Ativos digitais entram no radar dos jovens investidores

A presença da Geração Z no mercado de investimentos acompanha a ampliação do acesso a produtos financeiros por meios digitais. De acordo com o estudo Raio X do Investidor Brasileiro, realizado pela ANBIMA em parceria com o Datafolha, 36% dos brasileiros possuíam algum tipo de investimento financeiro, percentual também observado entre os participantes da Geração Z, considerada na pesquisa como pessoas de 16 a 29 anos em 2025.

No mercado internacional, uma pesquisa da Gemini com 7.205 consumidores de seis países apontou que 48% dos entrevistados da Geração Z possuíam ou já haviam possuído criptomoedas. O resultado demonstra a presença dessa classe de ativos entre os jovens pesquisados, embora não possa ser aplicado diretamente à população brasileira. Para Pereira, o interesse pelos ativos digitais está relacionado não apenas à possibilidade de investimento, mas também à experiência oferecida pelas plataformas e à familiaridade dos jovens com serviços disponíveis pela internet.

“Diferentemente das gerações anteriores, que costumavam iniciar sua jornada financeira pelos produtos oferecidos pelos bancos tradicionais, a Geração Z começa pelo ambiente digital. São investidores que aprendem, pesquisam e tomam decisões dentro de aplicativos e redes sociais. Isso cria um perfil mais autônomo, aberto à inovação e disposto a explorar novas classes de ativos, mas também exige maior atenção à qualidade das informações consumidas”, complementa.

Essa mudança acontece em um ambiente de digitalização dos pagamentos no Brasil. Segundo o Banco Central, o Pix representou 54,7% da quantidade de transações de pagamento registradas no segundo semestre de 2025, totalizando 42,9 bilhões de operações. Já a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025, com dados de 2024, mostrou que 75% das transações bancárias foram realizadas pelo celular. Embora esses indicadores representem o mercado brasileiro como um todo, e não exclusivamente a Geração Z, eles ajudam a contextualizar o ambiente em que os jovens desenvolvem seus hábitos financeiros.

Facilidade de acesso amplia desafios da educação financeira

A digitalização dos serviços financeiros também traz questões relacionadas à segurança, à compreensão dos riscos e à qualidade das informações utilizadas para tomar decisões de investimento.
O uso de aplicativos e a facilidade para movimentar recursos não significam, necessariamente, maior conhecimento sobre volatilidade, endividamento, planejamento financeiro ou funcionamento dos produtos disponíveis no mercado.

No caso dos criptoativos, a possibilidade de negociar em plataformas digitais exige atenção às oscilações de preço, aos riscos operacionais e às características de cada ativo. A influência de conteúdos publicados nas redes sociais também torna importante distinguir informações técnicas de recomendações sem fundamentação.

Segundo Pereira, empresas do setor precisam acompanhar a transformação do comportamento dos investidores, oferecendo conteúdos acessíveis sem deixar de apresentar os riscos envolvidos.

“Não basta apenas oferecer informação. É preciso traduzir temas complexos de forma clara, transparente e compatível com a linguagem digital. A nova geração busca autonomia, mas também quer contexto para tomar decisões mais conscientes”, explica.
Para o especialista, a educação financeira será um dos elementos centrais para que o interesse dos jovens por criptomoedas e outras modalidades de investimento se desenvolva de maneira mais consciente.

“O crescimento da participação dos jovens no mercado cripto é positivo porque amplia o acesso aos investimentos. Porém, autonomia sem conhecimento pode gerar decisões impulsivas. O desafio do setor é oferecer educação financeira clara, transparente e compatível com a linguagem digital dessa geração”, conclui Pereira.

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